Rara Avis in Terris, JUVENAL, Sátiras, VI, 165

terça-feira, 27 de junho de 2017

Aves de rapina

Abutres, Portugal


Tristemente, abutres políticos espreitam a dor alheia!



As amoras
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

domingo, 18 de junho de 2017

Amanhece

Pedrogão, 2017

Como amanhecem os espectros,
Ímpias cacofonias...
Íntimas as dores,
Dilaceradas as memórias?


Novos pintores realistas


E, mesmo assim, há quem, numa humanidade precária, se dilua em lirismos idílicos... em casulos narcísicos.

Ana




sábado, 10 de junho de 2017

Voragem

Suelly


As hortênsias estão exuberantes e a frescura do jardim esconde, ainda, o calor deste dia. Na planura o regoguejar de uma raposa leva-me de regresso à infância - esse lugar do ouro aonde, dizem-nos, teremos sido felizes. Recordo alguns instantes dessa felicidade: o cheiro amarelinho dos tremoceiros bravos; o pó da terra batida sobre a qual os pneus da bicicleta resvalavam, chiando ritmadamente; o meu rosto vermelho de tanta corrida e de tanto calor...ah e aquelas gargalhadas estridentes de garotada livre e segura...
Um excesso de mundo real tem-me levado do mundo virtual. Morreram-me alguns, uns outros adoeceram, aqueloutros cruzaram o oceano e, os que permanecem, envolvem-me cada dia.
Assim, no labor de cada hora se vai urdindo esta trama a que usamos designar de vida.
Sei que o agora é Hoje! Que Portugal é Hoje! Que a Amizade é sempre.

Ana

domingo, 21 de maio de 2017

Inespecífica

Pol Ledent

Corre o vento do Sul, nesta Primavera inespecífica. O labor afoga-nos cada dia. Há um pântano donde, mansamente, emerge a esperança. O Verão vai chegar na surpresa do vento que corre do Sul. 


Ana



segunda-feira, 8 de maio de 2017

Deve haver

Beckwith e Fisher. Sudão






Deve haver, num recanto qualquer
o bafo quente, a terna voz...
Deve haver, um mágico embondeiro
que acalme e proteja o terno rosto
e o espírito trágico que vagueia,
bombardeio de crueldade atroz.
Deve haver, num recanto qualquer
um ser humano, um colo de mulher,
um cálido ideal que serpenteia...
E o grito que rebenta a voz!

Ana






Conflito no Sudão do Sul já roubou os lares a dois milhões de crianças

Jornal EXPRESSO, 8/05/17